prosa
Idalina de Carvalho setembro 2008 (arquivo pessoal)
DO QUASE PECADO
(POESIA DE ANJOS)
... segurasse suas mãos, levasse-a quase pluma por um poema na quase madrugada do setembro recém-nascido em sublime adultério de anjos...
A sedução da alma! São demais os perigos desta vida...
... mas anjos não pecam, são puros. Até mesmo quando, distraídos, entornam desejo (a alma tem anseios).
Distraída, seria natural deixar-se levar pelas mãos. Um abraço mais envolvente, as mãos. Poesia por toda parte.
(A poesia sai pela boca, está dentro da boca, contida, a espera do milagre que a transforme).
Se, liberta de receios, abrisse em beijo a boca do poeta, consumado seria o pecado e a boca cuspiria no papel a poesia.
O desejo é o poema em estado de semente.
Idalina de Carvalho
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AVESSO
Gostava de fechar os olhos e me deixar levar aos mundos que inventava: de príncipes que me roubavam daquela vida de borralho - pés sempre nus no frio do inverno, vestido de algodão barato, cabelos lavados com sabão de coco, rosto bordado de espinhas.
Uma hora, entretanto, foi eternidade na dimensão de sonhos desabados.
Agora é tarde. Madrugada acorda a noite, convida-a ao que resta de prazer: a solidão e seu silêncio de grilos em serenata do outro lado da janela. Bruxas varrem o encanto das trevas, adormece o diabo (e seus zumbis).
O relógio tiquetaqueia monotonamente a pergunta: "Haverá amanhecer?"
Idalina de Carvalho.
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CONTO DE FADAS EM BRANCO E PRETO
Deus não tem tempo para meninas boazinhas. A cada uma cabe o mal que lhe é devido, como o bem. A vida real: nua e crua.
Sonhara seres divinos pelo caminho. Pensara-me capaz de abolir do mundo o mal.
Sete bestas desenharam meu conto de fadas, vestiram-se personagens a me acalentar o sono.
Sorri.
Lá fora, tempestade escoara da alma aprisionada em leito. Cinzenta. Gelada. Natureza em prantos.
Assim foi que tudo desabou.
Deus não teve tempo pra mim.
Amadureci.
Idalina de Carvalho.
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PROFECIA
As horas roubaram o sentido da noite e em desespero surgiram os primeiros raios da manhã.
Negou-se ao sono, ao quarto. Furtou-se do direito de não ser só e, à luz amarela daquele cubículo, perdeu-se em papéis, sensações, sedução. Noite sem sexo, sem nexo.
Remexeu-se no vazio um espectro. O mesmo, em tempo diverso, igual espaço.
Apareceu do nada, extremo silêncio.
Com olhos insanos, pegou-a no colo, lambeu suas dúvidas, apagou luz do dia e, entre gemidos, ele a devorou.
Idalina de Carvalho.
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AO NATURAL
Recaiu sobre si a culpa da humanidade na tarde quente daquela viagem. Um sol incendiando a relva das pastagens, morros e montanhas que passavam rapidamente pela janela, deixando para trás uma brisa assanhada em carícias, provocando volúpia, impregnando todo o ônibus com o sêmen da natureza exalado em suor, descendo por todo o corpo, como rio de água salgada, uma sede sem fim de tudo que pudesse refrescar o corpo e a alma.
Passiva, rendeu-se ao cansaço, despiu-se de conceitos, cerrou os olhos e...
Idalina de Carvalho.
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MALDIÇÃO
O pássaro fôra impedido de voar. Ardia agora desejo voraz de céu, acuado num canto escuro do mundo, constatada a maldição que levava a todo canto.
A lembrança do último vôo, o frescor da brisa, movimento do ritual, eram veneno alimentando a pobre ave.
Ali, no canto escuro, tentava colorir-se de negro, carmim, lambuzar-se de lama, ser cruel, na incapacidade de ser feliz.
Ainda assim era um pássaro. Branco, suave, triste. Maldito.
Idalina de Carvalho
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FINAL FELIZ (?)
Naquela noite cobriu-a de mimos. Foram palavras, sonhos em pinturas vazadas até sons denunciarem novo dia. Braços a puxá-la noite adentro e sussurros te amo, te amo, juras de nunca usar extremos da cama, ladainhas de protetor, querer vê-la feliz, de não merecer tal vida de sacrifícios. E beijos tantos, tantos, até lábios amolecerem de tanto vadiar. Um sentir a vida de dentro, intenso, amor de verdade daqueles de filmes de cinema.
Depois casaram-se.
Idalina de Carvalho.
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SUBVERSIVA
Latejavam-lhe as vísceras, desmentindo qualquer sinal de renúncia. Ainda assim refugiava-se sob o escudo que elegera por bandeira, filosofia caduca de vida. E funcionava. Maior parte do tempo sentia-se feliz. O resto do tempo era resto: nada mais.
Marcas camufladas sob sorriso desenhado, quem não as tinha? Mentiras, segredos a sete chaves, maquiagem encobrindo marcas de tempo inesquecido... atirasse a primeira pedra quem não houvesse cometido crime contra alforria própria... duvidava!
Seguiu punindo(se?), almejando, quem sabe, posição de santa. Nunca alguém saberá: de seus beijos ardentes, do corpo quente desassossegado inquietando lençóis, todos os prazeres, risos, magia... nunca alguém saberá(?).
Idalina de Carvalho.
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CAOS
Janelas e portas fechadas. Tudo era superfície e desgaste. Ardia guerra lá fora.
Foi preciso, na manhã cinza do final de milênio, manter tudo fechado, haurir forças.
A música contaminava o ar - eletrônica - e uma torre de babel pós-moderna se instalou, distanciando o homem da beleza. Não houve como fugir.
Incapaz de salvar o mundo, um deus se vestiu de silêncio e, em concha, dormiu. Renasceria. Sol vazando frestas, sugando trevas, penetrando póros, esbanjando luz.
Idalina de Carvalho.
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TEIMOSIA
Não tardou a verdade. Desabaram, uma a uma, todas as máscaras. Ainda assim, permaneceu. Gritou, esbravejou, lutou até ferir a vontade, até nem mais querer. Não queria. Nada. Agora só importava aceitar a vida como viesse, sem amor, sem emoção, tampouco sonho.
Buscava, mergulhada em palavras, novo sentido de existir. Desaprendia arcadismo e moralismo. Seguia, olhos áridos em riste, determinada a improvisar um jeito pós-modernista de ser.
Idalina de Carvalho
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CRAVINAS AMARELAS
Olhou para trás e sentiu ainda nos braços a dor daqueles dias. A sensação, já quase esquecida, desabotoou de si e encheu o ar de morte. Um perfume de cravinas - amarelas, haveriam de ser amarelas - um gelo na alma e vozes no quase sono diante do copo dágua e do evangelho.
Um céu azul de calor intenso denuncia verão e enterra o passado. Pés ainda feridos - da árdua jornada - suportam corpo sedento, faminto, renascido.
No olhar, vestígio de morte, prenúncio da luz.
Idalina de Carvalho.
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CREPÚSCULO
Devoradas batatas e massas, ainda assim o vazio entornava-lhe a alma. De um lado, rendas e fitas sugando a essência obrigada ao esforço. De outro, desejo de inverso, versos, sons.
Idéias, conclusões, vinham como raios a cegá-la por completo e dentro em pouco estaria prestes a precipício igual carnaval de tristeza funda. Não havia mesmo centro ou cerca para a dor que amargava. Estava só. Sem super-herói ou mesmo monstro que a arrancasse do labirinto em que se enfiara.
Idalina de Carvalho
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AQUELE DIA
Por um minuto a vida era seu mais precioso dom. Restava-lhe por um fio. Dependendo de um único poema cuspido no branco do papel, da seiva sugada de si. Não diria, assim decidira e enganava-se em aceitação e equilíbrio sobre a realidade que viria em pouco e transformaria sua vida, de uma forma ou de outra.
Último degrau daquele sem fim,o suor no rosto trêmulo a suplicar respostas, a moça de branco: captara-a e não tardou em desmenti-la da fatalidade que sadicamente planejara.
Dia seguinte novamente sensação de fim. Perdida em dimensão insana, mãos frias, batidas descompassadas e fracas,imagens embaralhando-se pelo vão da parede que mostrava tarde fresca de agosto encostando-se no verde da praça. A voz a chamá-la e o sorriso. Suspiro de alívio.
Tudo acabado.
Idalina de Carvalho
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EM PEDAÇOS
... foi deixando pelo caminho seus pedaços. Nos verdes nos, ficou o sonho, a determinação. Logo depois, seu sexo na boemia - longas noites em boates de prostituição. Mais tarde, sepultou o coração em corpo ainda criança. E, desde então, brotou uma meada de fios brancos de sua lembrança.
Jaz no canto da sala, cabisbaixo, resto do que foi auge, borra de vida manchada de culpa, remorso. Vontade tardia de paz.
Idalina de Carvalho.
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